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domingo, 1 de junho de 2014

O modo possessivo com que Mário a tocava


Beatriz desmontou e começou a desenrolar a esteira.

— Meu velho, suas palavras realmente tocaram o meu cora­ção — declarou, tentando brincar, embora falasse sério.

— Mais respeito, sim, garota? Fico magoado em saber que você não me leva a sério.

— É exatamente por levá-lo a sério que estou brincando. Só agora percebo como nossa amizade me é importante.

Mário também desmontou e, de pé ao lado dela, obrigou-a a fitá-lo:

— Tem razão, minha cara. Mas não se prenda ao passado, quando ainda temos todo um futuro pela frente. Só Deus sabe o que ele nos reserva.

Para Armando, aquilo já era demais. Apesar de se identificar com o que os dois falavam, sentia-se meio rejeitado, excluído do gru­po. Tampouco lhe agradava o modo possessivo com que Mário a tocava. Não gostava das promessas que ele lhe fazia.

Seria engano dele? Será que Mário não estava apenas brin­cando, divertindo-se em provocá-lo? Porém, e se ele estivesse realmente interessado em Betty? Torcia para que isso nunca acontecesse, mas era o tipo da coisa imprevisível.

Mas não: algo em seu íntimo lhe garantia que Beatriz e Mário não eram feitos um para o outro. Não, faria de tudo para impedir que Mário continuasse a avançar.

Então, vendo Mário prestes a beijar os lábios dela, inter­rompeu:

— Não sabia que você tinha deixado de escrever guias de pesca para escrever romances, Mário. Você e Júlia deviam se juntar e trocar ideias.

Mário balançou a cabeça:

— O fato de eu ser um rapaz romântico não quer dizer que tenha trocado de carreira. É o temperamento irlandês.

— Entendo.

— O dia está muito bonito, e não vou permitir que nada des­trua meu bom humor. Então, por que não deixa de bobagens e se diverte como nós dois?

Vendo Armando vacilar diante do convite, Beatriz desviou o assunto:

— Mário, você só escreve sobre pesca. Então, tire umas fé­rias e venha pescar — comentou, estendendo a esteira. — Não se cansa de fazer sempre a mesma coisa?

— Até agora, não — garantiu ele, pondo a mochila sobre a esteira. — Gosto de unir o útil ao agradável, a vocação e o lazer.

Beatriz estendeu uma toalha sobre a esteira e começou a tirar a comida da mochila.

— Acho que por enquanto isso é o ideal para você, mas e quando decidir se casar? Não acha que as viagens podem atra­palhar?

Mário sentou-se na beirada da esteira e cruzou as pernas.

— No momento não me preocupo muito com isso, mas acho que quando tiver minha família vou procurar levá-los comigo sempre que possível. Ou, como Armando bem sugeriu, largo os guias e começo a escrever romances.

Armando não gostava do interesse que Beatriz demonstrava pe­los planos do amigo e teve de se conter para não perder a pa­ciência. O melhor era não lhe dar motivos para considerá-lo um brutamontes. Tirando as cervejas da caixa, sentou-se ao lado de Beatriz.

— Imaginação é o que não lhe falta — disse, ao abrir uma lata para si. Então, quando já ia levá-la à boca, viu Mário desembrulhar um sanduíche e oferecê-lo a ela. Agiu imediatamente: — Tome, Betty! Você disse que aprendeu a gostar de cerveja, então mostre-nos.

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