Beatriz desmontou e começou a desenrolar a esteira.
— Meu velho, suas palavras realmente tocaram o meu coração — declarou, tentando brincar, embora falasse sério.
— Mais respeito, sim, garota? Fico magoado em saber que você não me leva a sério.
— É exatamente por levá-lo a sério que estou brincando. Só agora percebo como nossa amizade me é importante.
Mário também desmontou e, de pé ao lado dela, obrigou-a a fitá-lo:
— Tem razão, minha cara. Mas não se prenda ao passado, quando ainda temos todo um futuro pela frente. Só Deus sabe o que ele nos reserva.
Para Armando, aquilo já era demais. Apesar de se identificar com o que os dois falavam, sentia-se meio rejeitado, excluído do grupo. Tampouco lhe agradava o modo possessivo com que Mário a tocava. Não gostava das promessas que ele lhe fazia.
Seria engano dele? Será que Mário não estava apenas brincando, divertindo-se em provocá-lo? Porém, e se ele estivesse realmente interessado em Betty? Torcia para que isso nunca acontecesse, mas era o tipo da coisa imprevisível.
Mas não: algo em seu íntimo lhe garantia que Beatriz e Mário não eram feitos um para o outro. Não, faria de tudo para impedir que Mário continuasse a avançar.
Então, vendo Mário prestes a beijar os lábios dela, interrompeu:
— Não sabia que você tinha deixado de escrever guias de pesca para escrever romances, Mário. Você e Júlia deviam se juntar e trocar ideias.
Mário balançou a cabeça:
— O fato de eu ser um rapaz romântico não quer dizer que tenha trocado de carreira. É o temperamento irlandês.
— Entendo.
— O dia está muito bonito, e não vou permitir que nada destrua meu bom humor. Então, por que não deixa de bobagens e se diverte como nós dois?
Vendo Armando vacilar diante do convite, Beatriz desviou o assunto:
— Mário, você só escreve sobre pesca. Então, tire umas férias e venha pescar — comentou, estendendo a esteira. — Não se cansa de fazer sempre a mesma coisa?
— Até agora, não — garantiu ele, pondo a mochila sobre a esteira. — Gosto de unir o útil ao agradável, a vocação e o lazer.
Beatriz estendeu uma toalha sobre a esteira e começou a tirar a comida da mochila.
— Acho que por enquanto isso é o ideal para você, mas e quando decidir se casar? Não acha que as viagens podem atrapalhar?
Mário sentou-se na beirada da esteira e cruzou as pernas.
— No momento não me preocupo muito com isso, mas acho que quando tiver minha família vou procurar levá-los comigo sempre que possível. Ou, como Armando bem sugeriu, largo os guias e começo a escrever romances.
Armando não gostava do interesse que Beatriz demonstrava pelos planos do amigo e teve de se conter para não perder a paciência. O melhor era não lhe dar motivos para considerá-lo um brutamontes. Tirando as cervejas da caixa, sentou-se ao lado de Beatriz.
— Imaginação é o que não lhe falta — disse, ao abrir uma lata para si. Então, quando já ia levá-la à boca, viu Mário desembrulhar um sanduíche e oferecê-lo a ela. Agiu imediatamente: — Tome, Betty! Você disse que aprendeu a gostar de cerveja, então mostre-nos.
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