— Não seja exagerada, Betica, é claro que nos veremos antes da quarta pela manhã. — Então, segurou-a pelos ombros e sacudiu-a de leve: — Hoje, vou realmente estar ocupado com uns negócios, mas amanhã arrumo um tempinho para vocês.
— Quanta generosidade — ela murmurou, revoltada, vendo-o deixar o hotel.
De fato, mãe e filha não o viram mais aquele dia, e Beatriz não saberia dizer se a ideia de encontrá-lo para o café na manhã seguinte a agradava ou não. O consolo era saber que seria apenas para o café e depois ele as deixaria em paz pelo resto do dia.
— E então? Como foram as compras ontem? — Armando indagou-lhes, na manhã seguinte, durante o café. — Conseguiram limpar as lojas, ou ainda resta alguma coisa para se comprar nesta cidade?
Beatriz o olhou com a testa franzida e deixou a conversa por conta de Júlia. Depois de ter passado a noite quase toda em claro, imaginando onde ele estaria, não acordara muito bem-humorada.
— Que exagero! — exclamou Júlia, divertindo-se. — Na verdade, só fomos a uma loja ontem. O resto ficou para hoje.
— Ah, bom! Por acaso fazem ideia de onde estarão por volta de meio-dia? Se me for possível, gostaria de apanhá-las para irmos almoçar juntos.
Beatriz intrometeu-se na conversa:
— Não acho que seja uma boa ideia. Não temos noção de onde estaremos, e você vai perder muito tempo nos procurando.
No entanto, nem bem acabara de falar, e Júlia a contradisse, dando a Armando uma ideia bem detalhada de onde encontrá-las. Desolada, Beatriz suspirou e voltou-se para Armando:
— Já que insiste, por que não deixa que nós duas vamos ao seu encontro? Você iria se aborrecer conosco nas lojas.
Para seu desespero, aquela viagem não estava saindo conforme planejara. A ideia era transformá-la de garota simples de calça jeans em uma mulher sofisticada e bem-vestida, mas isso era impossível tendo-o em seu encalço o dia todo.
Armando, no entanto, achou graça.
— Não se preocupe, Betica, eu dificilmente me aborreço e prometo não espiá-la no provador.
Beatriz teve vontade de dar-lhe uma resposta atravessada, mas ter boas maneiras também fazia parte do plano. Desde que sua mãe inventara aquela viagem, sabia que teria de começar a agir como uma perfeita dama e, assim, quem sabe o fizesse vê-la com outros olhos? Portanto, engoliu a resposta e continuou a tomar café.
Uma hora mais tarde, Beatriz e Júlia estavam confortavelmente instaladas numa das lojas mais elegantes de Cartagena. A sala onde se encontravam tinha as paredes verde-claras e o carpete um tom mais escuro. A mobília, em estilo francês, era estofada em verde e cinza. Mas a atração principal da loja era o desfile de moda que organizaram para que os clientes pudessem escolher melhor os modelos exibidos pelas manequins.
Beatriz, a uma certa altura, curvou-se para frente e murmurou:
— Mamãe, você não espera que eu encontre alguma coisa aqui, não é? Cada vestido desses deve custar uma fortuna!
— Pois já é hora de você ter uns vestidos mais elegantes, querida — Júlia respondeu, impaciente, prestando atenção na manequim à sua frente.
— Mas, mamãe, eu não quero...
— Que bobagem, filhinha — Júlia insistiu, recusando-se a ouvir-lhe os protestos. Então, voltou-se para a vendedora: — A senhora não tem algo um pouco mais decotado? Minha filha tem um colo muito bonito e seria uma pena escondê-lo.
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