Beatriz ficou estarrecida e mal pôde crer no que ouvira. Depois de tanto sacrifício para disfarçar o tamanho dos seios... Após o desfile, Júlia lhe indagou:
— E então? Quais você quer experimentar?
— Bem... — ensaiou, quase em pânico. — Para ser sincera, nenhum me agradou. Por que não vamos a outra loja?
Beatriz acabou perdendo a conta de quantos modelos provou; a seu ver, cada um mais ridículo que o outro. Todos, no entanto, tinham algo em comum: a economia de tecido, principalmente da cintura para cima. O preço, porém, era exorbitante.
Desanimada, admirou-se no espelho do provador. O vestido que experimentava era de um verde intenso, cor de esmeralda, feito de chamalote. O corpo era composto por duas tiras largas que cobriam o busto e se juntavam na cintura, sob uma fivela de strass, e a saia era redonda. O decote das costas era tão profundo quanto o da frente.
Não havia como negar a beleza do modelo e da cor, que realçava sobremaneira seus óculos prediletos e os cabelos fixados com gel. Na modelo que o apresentou durante o desfile, macérrima, o vestido ficava espetacular, mas nela... Beatriz tinha vergonha de olhar-se ao espelho: tinha formas mais generosas que as das manequins e, além disso, não estava acostumada a andar sem sutiã.
Deu alguns passos dentro do minúsculo provador e percebeu que a cada movimento os seios se evidenciavam. Se ao menos pudesse usar um sutiã... Mas não havia jeito. Conformada, suspirou e abriu a cortina do provador para se submeter à apreciação de Júlia. Um segundo antes de sair, porém, mirou-se mais uma vez e imaginou o que Armando diria se a visse com o vestido... Será que continuaria a julgá-la uma criança? Conhecendo-o bem, podia jurar que ele nem iria reparar em suas formas.
— É esse! — Júlia exclamou ao vê-la entrar na sala. — Ficou perfeito em você, querida. A cor é linda, e o decote insinua sem exibir.
— Imagine só se eu tiver de me curvar para apanhar algo! Olhe, mamãe, sinceramente, não me sinto à vontade com um vestido desses em público. Vou ficar superconstrangida.
— Beatriz! — repreendeu-a a mãe. — Às vezes você me irrita com sua infantilidade.
— Eu não sou mais criança; só estou sendo franca.
— Vire-se.
Percebendo que seria inútil discutir, Beatriz deu dois giros completos e perguntou:
— O que você achou daquele outro, o verde-claro; um dos primeiros que vimos? Ou então o branco, de mangas bufantes?
Na verdade, não gostara muito de nenhum dos dois, mas qualquer coisa seria melhor do que aquele que provava.
— Não seja tola! A ideia é fazê-la transformar-se numa mulher cheia de autoconfiança, sensual e sedutora. Não numa virgenzinha!
— Mas eu sou uma virgenzinha! — Beatriz alegou, já desesperada.
— É mesmo? — Júlia indagou, sem muito interesse — Não fique triste, dá-se um jeito nisso.
Beatriz pendeu a cabeça para trás e caiu na gargalhada. Júlia era demais!
— Mamãe, você é bárbara, e eu te amo muito!
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