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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Podia jurar que ele nem iria reparar


Beatriz ficou estarrecida e mal pôde crer no que ouvira. Depois de tanto sacrifício para disfarçar o tamanho dos seios... Após o desfile, Júlia lhe indagou:

— E então? Quais você quer experimentar?

— Bem... — ensaiou, quase em pânico. — Para ser sincera, nenhum me agradou. Por que não vamos a outra loja?

Beatriz acabou perdendo a conta de quantos modelos pro­vou; a seu ver, cada um mais ridículo que o outro. Todos, no entanto, tinham algo em comum: a economia de tecido, principalmente da cintura para cima. O preço, porém, era exorbitante.

Desanimada, admirou-se no espelho do provador. O vestido que experimentava era de um verde intenso, cor de esmeralda, feito de chamalote. O corpo era composto por duas tiras largas que cobriam o busto e se juntavam na cintura, sob uma fivela de strass, e a saia era redonda. O decote das costas era tão pro­fundo quanto o da frente.

Não havia como negar a beleza do modelo e da cor, que real­çava sobremaneira seus óculos prediletos e os cabelos fixados com gel. Na modelo que o apresentou durante o desfile, macérrima, o vestido ficava espetacular, mas nela... Beatriz tinha vergonha de olhar-se ao espelho: tinha formas mais generosas que as das ma­nequins e, além disso, não estava acostumada a andar sem sutiã.

Deu alguns passos dentro do minúsculo provador e percebeu que a cada movimento os seios se evidenciavam. Se ao menos pudesse usar um sutiã... Mas não havia jeito. Conformada, sus­pirou e abriu a cortina do provador para se submeter à apre­ciação de Júlia. Um segundo antes de sair, porém, mirou-se mais uma vez e imaginou o que Armando diria se a visse com o ves­tido... Será que continuaria a julgá-la uma criança? Conhecendo-o bem, podia jurar que ele nem iria reparar em suas formas.

— É esse! — Júlia exclamou ao vê-la entrar na sala. — Fi­cou perfeito em você, querida. A cor é linda, e o decote insinua sem exibir.

— Imagine só se eu tiver de me curvar para apanhar algo! Olhe, mamãe, sinceramente, não me sinto à vontade com um vestido desses em público. Vou ficar superconstrangida.

— Beatriz! — repreendeu-a a mãe. — Às vezes você me irrita com sua infantilidade.

— Eu não sou mais criança; só estou sendo franca.

— Vire-se.

Percebendo que seria inútil discutir, Beatriz deu dois gi­ros completos e perguntou:

— O que você achou daquele outro, o verde-claro; um dos primeiros que vimos? Ou então o branco, de mangas bufantes?

Na verdade, não gostara muito de nenhum dos dois, mas qual­quer coisa seria melhor do que aquele que provava.

— Não seja tola! A ideia é fazê-la transformar-se numa mu­lher cheia de autoconfiança, sensual e sedutora. Não numa virgenzinha!

— Mas eu sou uma virgenzinha! — Beatriz alegou, já de­sesperada.

— É mesmo? — Júlia indagou, sem muito interesse — Não fique triste, dá-se um jeito nisso.

Beatriz pendeu a cabeça para trás e caiu na gargalhada. Júlia era demais!

— Mamãe, você é bárbara, e eu te amo muito!

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