Mas Júlia estava distante, perdida em pensamentos.
— Acho que vou telefonar para Don Roberto...
— Não! — Beatriz suplicou, levantando-se da cadeira. — Por favor, não. Prometa que não vai comentar com ninguém o que acabamos de conversar.
— Mas, por que não? Francamente, minha filha, não consigo entendê-la. Só estou querendo ajudar.
— Por favor, não. Eu dispenso qualquer ajuda. Não há nada que você possa fazer, portanto poupe-me o embaraço. Promete?
— Está bem, está bem; se é assim que você prefere. Mas acho que está cometendo um erro; uma conversinha franca poderia esclarecer tudo.
— Obrigada, mas não posso aceitar.
— Contudo, imponho uma condição — disse Júlia, deixando a filha apreensiva.
— Diga.
— Você tem de ir ao aniversário de Don Armando.
— Mamãe!
— Se quiser que eu prometa silêncio, terá de me prometer que irá à festa. Naturalmente, você vai precisar de um vestido novo. Talvez um penteado diferente também ajude. Afinal, esse rabo-de-cavalo a torna muito infantil, E então? Negócio fechado?
Domingo à tarde, Beatriz estava mais deprimida que nunca: sua mãe já fazia planos mirabolantes para a grande viagem de compras que fariam aquela semana, com o intuito de modificar seu guarda-roupa. Não que Beatriz desaprovasse a ideia, pois, no fundo, gostaria de comprar umas roupas mais femininas. Mas, e se não desse certo?
Recostada contra um carvalho, distraída, jogava pedrinhas na água de um pequeno lago natural. Durante os anos de infância, ela, Armando e Mário Calderón — um colega de escola — haviam passado horas maravilhosas ali. Os dois gostavam de sua companhia e sempre a traziam para pescar. Pena que com o tempo tudo tivesse se modificado...
Agora, Beatriz raramente se encontrava com Mário e, embora visse Armando com freqüência, tudo entre eles havia mudado. Tudo, exceto a atitude dele em relação a ela. Isso, Beatriz temia que jamais mudasse.
Será que um guarda-roupa novo faria alguma diferença?, indagava-se com incredulidade. E se ele a achasse ridícula tentando se fazer passar por uma moça sofisticada? Jamais suportaria tanta humilhação.
O vento assobiava por entre as folhas do carvalho e os galhos dos pinheiros, e só quando Armando chegou bem perto foi que Beatriz ouviu o trotar de seu cavalo. Calada, viu-o descer do animal, com um movimento rápido, e soltar as rédeas. Ambos sabiam que Lombardi não se afastaria dali.
— Eu sabia que a encontraria aqui — ele revelou, sorridente, ao sentar-se ao lado dela.
Olhando-o de relance, Beatriz voltou a fixar o olhar num ponto longínquo do horizonte e encolheu as pernas apoiando os braços sobre os joelhos.
— Não sabia que estava à minha procura — disse, desejando que ele não a tivesse encontrado para roubar-lhe o sossego.
— Ainda bem, senão teria escapado — Armando brincou. — Freddy me contou que a viu nesta direção; então, logo imaginei que tivesse rumado para cá. Aliás, eu não me surpreenderia se a encontrasse mergulhando nua; não seria a primeira vez.
— Mas seria certamente a última — ela garantiu, desviando o rosto corado.
— Ora, por quê? — Armando quis saber, provocando-a. — Eu com certeza ficaria fascinado com sua beleza.
— Não tenho tanta certeza assim — Beatriz revidou, empurrando-o carinhosamente. A proximidade dele a perturbava.
— A última vez em que a vi nadando nua confesso que fiquei muito impressionado.
— Não diga bobagens; eu só tinha doze anos!
— Mas já prometia transformar-se numa moça linda.
— Vamos mudar de assunto? — ela sugeriu. — Ou melhor: por que você não vai embora e me deixa em paz?
— Sinto muito, mas é impossível.
— Por quê?
Ele se acomodou melhor, estirando-se sobre a grama, puxou o chapéu sobre os olhos e cruzou os braços sob a nuca.
— Eu e Lombardi estamos exaustos.
Beatriz olhou para o garanhão cinzento que pastava ao lado de sua égua. Cavalo e cavaleiro, ambos eram belíssimos e formavam uma dupla sem igual. Seus olhos fixaram-se em Armando, ali a seu lado, e uma onda de calor aqueceu-a. Murmurando algo incompreensível, apanhou um galho seco, começou a quebrá-lo em pedacinhos e atirá-los no lago.
Armando caiu na gargalhada.
— Ora, você não está sendo nem um pouco gentil, Betty. Isso é jeito de me recepcionar? Deveria estar grata por Freddy ter me dito onde encontrá-la.
— Puxa, que sorte a minha! — exclamou com ironia, desejando esganar o capataz.
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