Sem se dar ao trabalho de responder-lhe, subiu na traseira da caminhonete, pegou o estepe e o jogou ao chão. O pneu caiu a poucos centímetros de onde Armando estava agachado.
— Ei! Cuidado com isso! — ele gritou, assustado, olhando-a com ares de zangado.
Beatriz encontrava-se debruçada sobre a guarda da carroceria. O sol forte produzia uns reflexos avermelhados em seus cabelos, deixando-a absolutamente encantadora. Uma mancha de graxa sujava-lhe a ponta do nariz e a camisa, atraindo o olhar de Armando para a curva de seus seios. Ela mais parecia uma amazona, dona de uma beleza selvagem e sensual.
Após sair daquele transe, Armando balançou a cabeça e voltou a se concentrar na tarefa que tinha à frente. Porém, já tendo erguido a caminhonete, começava a tirar os parafusos, quando ela saltou da carroceria.
— Droga! O que está pretendendo fazer? Quer me matar do coração? — Armando gritou, deixando cair a chave de roda.
Beatriz riu.
— Não seja tão dramático; eu só pulei da caminhonete. Um homem tão valente não se deixa assustar por uma garota tão frágil como eu.
— Caso ainda não tenha notado, você não é tão frágil quanto se julga — disse, num tom um pouco lisonjeiro, que a deixou possessa.
— Sou bastante frágil, se comparada a você.
E, pondo fim àquela conversa, pegou a ferramenta que ela havia derrubado e começou a soltar os parafusos.
— Ei, pare com isso. Saia daí, senão não consigo trocar esse maldito pneu.
— Não precisa se incomodar — ela retrucou. — Mulheres fortes como eu não se deixam derrotar por um pneu furado.
O modo como Armando se referira a ela realmente a magoava. Sabia que era considerada uma garota forte, acostumada ao trabalho duro do campo, mas isso nunca atrapalhara sua feminilidade. Quando adolescente, o fato de ser mais alta do que a média das meninas da mesma idade e de ter os seios fartos lhe representava um obstáculo para o bom relacionamento com os rapazes, mas, com o tempo, aprendera a superar aqueles complexos e tirar proveito de sua beleza.
— Eu nunca insinuei que você fosse musculosa, mas tem de admitir que não é raquítica. Agora, deixa que eu continuo. Esse parafuso aí eu não consegui soltar antes. Acho que vai precisar de um pouco de óleo.
— Bobagem.
Nisso, ela tentou fazer mais força com a ferramenta, o pneu girou e acabou caindo sentada no chão.
Humilhada, Beatriz baixou o rosto e calou-se.
Armando sentiu-se responsável pelo ocorrido e, apelando para o espírito esportivo, pegou a ferramenta para prosseguir com o serviço. Para sua surpresa, ela não voltou a incomodá-lo e simplesmente entrou na caminhonete.
— Betty — disse ele, apoiando o braço na janela aberta. — Você sabe que teremos de discutir este assunto mais cedo ou mais tarde, não é?
Armando já não tinha mais dúvidas de que ela ouvira sua conversa com Roberto.
— Não vejo necessidade de falarmos no assunto — ela garantiu, por não se julgar pronta a enfrentar uma discussão. — Para mim, ficou tudo muito claro. Mas, garanto que não precisa se incomodar: eu não me casaria com você nem que fosse o último homem da face da Terra!
A mentira fez doer-lhe o coração. Amava-o muito e jamais se interessara por outro rapaz. Se ao menos conseguisse conquistá-lo...
— Vamos, Betty, seja razoável!
Porém, naquele exato momento, ela não estava querendo ser razoável: Sentia-se profundamente magoada.
Percebendo que seria inútil insistir naquela conversa, Armando suspirou e terminou de trocar o pneu. Não ia ser nada fácil convencê-la de que Roberto não tivera a intenção de faltar-lhe ao respeito, mas apenas de alertá-lo para o fato de que ela se transfomara numa mulher.
Trocado o pneu, Armando guardou as ferramentas e, antes que pudesse impedi-la, Beatriz deu a partida.
— Ei! Espere aí, ainda precisamos conversar.
— Não tenho mais nada para lhe dizer.
— Mas pensei que fosse me ajudar com o gado.
— Mudei de ideia — ela disse, simplesmente, já se afastando.
— E agora, o que eu faço? — Armando gritou. Ela sempre o ajudara na vacinação.
Beatriz pôs a cabeça para fora da janela e gritou:
— Vire-se!
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