Roberto
tinha razão: o corpo, antes franzino, adquirira contornos arredondados e
femininos. Por que não o notara antes?
Beatriz sentiu o sangue ferver-lhe nas veias, ao ser submetida àquela
apreciação. O olhar atento de Armando percorria-lhe as curvas como se a
desnudasse. Por fim, acabou perdendo a paciência e apoiou as mãos na cintura.
Que petulância!
—
Afinal, Don
Armando, você precisa ou não da minha ajuda? — E, sentindo o rosto arder,
percebera quanto fora infeliz na escolha das palavras. No entanto, prosseguiu;
— Senão, vou falar com Inezita — anunciou, pronta para abrir a porta da
cozinha.
—
O quê?! — O tom frio de Betty o trouxe de volta à realidade.
Absolutamente constrangido, abaixou o olhar e censurou-se pelo que havia feito. — Ah, não, não!
Pode ir — garantiu, mas, antes que ela se afastasse, segurou-a pelo braço e a
deteve: — Bem, Betty... isto é, aconteceu alguma coisa?
— Ora, imagine, Don Armando, que bobagem!
E, dando-lhe as costas, abriu a porta de vaivém
que separava a cozinha do corredor, sem se importar em segurá-la para que ele
passasse.
Armando continuou imóvel, no exato lugar onde
estava. Franzindo a testa,
ponderou sobre a hipótese de ela tê-los ouvido. Com certeza não teria gostado
do modo como Roberto falara a respeito dela, a não ser, é claro, que se
importasse com a opinião dele sobre suas qualidades de boa esposa. Mas algo lhe
dizia que não era o caso.
Puxando o chapéu sobre a testa, torceu para que aquelas suspeitas não tivessem fundamento, pois detestaria
tê-la magoado.
Por outro lado, caso ela os tivesse ouvido, já estaria a par da ideia
maluca de Roberto e trataria de se precaver, porque também a ela a ideia devia
parecer totalmente absurda.
Mais animado, entrou na cozinha com um sorriso confiante, disposto a
esclarecer de vez o mal-entendido.
—
Onde
está Betty? — perguntou, desapontado.
—
Aqui ela
não está — respondeu Inezita, afastando os cabelos que lhe haviam caído sobre
a testa.
—
Eu sei
disso. Quero saber para onde ela foi.
—
Como posso saber? — ela revidou, como de costume, sem se intimidar diante do patrão. — Por
acaso pareço um computador?
Rindo da pergunta, ele se aproximou e beijou-lhe carinhosamente as
bochechas.
—
Não, Inezita,
você não se parece com um computador, mas é tão divertida quanto eles!
—
Ora, seu moleque! Mais respeito comigo! Olhe que eu troquei suas fraldas e exijo que me trate
com mais consideração! — disse brincando.
—
Inezita,
Inezita...
—
E dê o
fora daqui, senão vou ser obrigada a servir só uma sopa no jantar.
—
Ah, essa não! — ele respondeu, divertindo-se. — Se é assim, irei embora já.
------------------------
--------------------------------
----------------------------------------------
Nenhum comentário:
Postar um comentário