Conformada, Beatriz deixou-se afundar na poltrona frente à escrivaninha e gemeu, pois sabia que sua mãe falava sério. Quando algo a intrigava, Júlia ia ao fundo da questão, a qualquer custo.
— Está bem, já que você insiste. Esta manhã, escutei uma conversa particular entre Don Roberto e Armando.
— Beatriz, você ficou escutando conversa alheia?
— Sim, fiquei — confessou, encabuladíssima.
— Que ótimo! — Júlia exclamou batendo palmas. — Vamos, conte logo. O que foi que você ouviu?
Inconformada, Beatriz balançou a cabeça e riu. Apesar de ela ter seus vinte e dois anos, a mãe ainda conseguia surpreendê-la. Podia jurar que Júlia fosse lhe passar uma descompostura; no entanto, lá estava ela, curiosíssima, sentada na ponta da poltrona.
Tirando partido da situação, resolveu ir direto ao assunto:
— Don Roberto quer que Armando se case comigo.
Júlia arregalou os olhos e pulou da cadeira.
— Que maravilha! Sempre o julguei um homem de bom senso. E quando será o casamento?
Diante de tanto entusiasmo, Beatriz arrependeu-se da tática, pois não julgava que Júlia levasse a coisa tão a sério.
— Não, mamãe, você não entendeu. Não haverá casamento nenhum.
— Como? Por que não? — ela indagou, indignada. — Você disse que Don Roberto quer.
— Mas Armando não.
Júlia ficou pasma.
— Não? Como não?
Beatriz não conseguiu encará-la e desviou o olhar.
Se você não se importa, prefiro não discutir o assunto. Além disso, eu não me casaria com Armando, mesmo que ele quisesse.
— Ora, não seja tola! Claro que vocês vão se casar! Há tempos que se amam. É só uma questão de tempo, e Don Armando vai acabar amadurecendo. Ele precisa se estabelecer na vida.
As palavras de Júlia deixaram Beatriz encabulada, pois nunca imaginara que sua mãe soubesse daquela paixão; não ela, sempre tão avoada.
— Ele ainda não se julga preparado para o casamento, mamãe e, mesmo que se julgasse, eu seria a última mulher por quem se interessaria.
— Não seja ridícula, ele sempre teve uma queda por você.
Beatriz teve vontade de mudar de assunto, mas sabia que não conseguiria.
— Sim, ele gosta de mim, mamãe, mas como irmã; não como amante. Portanto, desista da ideia. Finais felizes só acontecem nos seus livros.
— Não há nada de errado com meus livros.
— Claro que não — Beatriz esclareceu rapidamente —, são os melhores no gênero. Só que não condizem com a realidade. Na vida, as coisas nem sempre acontecem como planejamos. Confesso que fui apaixonada por Armando, quando era mais jovem, mas hoje, que sou adulta, a situação é outra.
E não se preocupou em explicar que a paixonite juvenil transformara-se em algo mais sério e profundo.
— Querida, não diga bobagens — aconselhou Júlia. — Creia em mim: vocês dois foram feitos um para o outro.
— Mamãe, você está se esquecendo de uma coisa: eu ouvi os dois conversarem e sei que Don Roberto não pode obrigá-lo a se casar comigo. Armando deixou bem claro que é contra a ideia e alegou que... Bem, que... prefere uma esposa da mesma idade que ele e mais experiente do que eu. — Lutando contra o ímpeto de chorar, ensaiou um sorriso falso. — Portanto, não alimente ilusões.
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